quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Mulher


Foto tirada pelo autor no Memorial da América Latina - São Paulo - Desenho de Rosana Paulino

A sina de todo homem é encontrar o reflexo da existência no olhar de uma mulher. Posso escrever mil palavras, e levar mil dias para consumar o que entendo ser uma paixão por alguém. Posso encontrar rostos e vozes que me ajudam a compreender as artimanhas do destino. Posso até me calar na contemplação dos dias que poderia passar ao lado dela. Tentar montar na minha lembrança os detalhes de cada segundo, cada instante que não deve ser desprezado. Posso sonhar com o vigor de uma imaginação criativa e sensível, forte e sensual, que molda a minha companhia como uma rainha. Com o adorno da sua voz e cheiro, na suntuosidade de um palácio que só eu conheço. Posso beber este vento que me alisa e sentir o odor passageiro de uma alucinação permanente. Posso tremer nas entranhas ao pensar nos meus sentidos em prontidão, ao invadi-la com um beijo. E sentir a sua boca e seu hálito numa espécie sublime de ardor. Num futuro, quero me lembrar dos momentos que massagearei as suas costas, enquanto ela dormirá eterna no meu reinado desvairado, como uma menina imaculada que por vezes será, como uma gata profana que por vezes arrebatará. Posso tudo que sonhar porque a terei como companheira, a terei como amante e menina, a terei como minha mulher.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Piazza Navona


Lá embaixo, o largo turbilhona-se em pessoas e afazeres estranhos. Umas pintam, outras olham, muitas passam indiferentes, de mãos dadas ou sozinhas. Risadas exageradas se escondem do frio nos bares perfilados que margeiam, envolvem e empurram as pessoas para o centro da praça. Luzes amareladas tornam as pinturas mais dramáticas e douram as estátuas clássicas, que descansam eternamente nas duas pontas da Piazza Navona. E cá estou eu, em frente a uma obscura janela, dentro de um minúsculo e anônimo cômodo, localizado no segundo andar de um dos muitos sobrados que tudo amuralham. Alheado de todos, numa espécie de testemunha insignificante da cena, ofego um pouco após subir um grande lance de escada. Para a bela ragazza que me convidou, devo engolir a evidência do meu cansaço e esconder a debilidade do meu corpo.

-  Vuoi qualcosa da bere?

Creio que ela percebeu minha inquietude, já que seus grandes olhos castanhos me encaram sem erguer a cabeça, como se olhassem para cima numa falsa impressão de fragilidade. Além do econômico e cortês sorriso que enfeita a pergunta. Elegante jeito com a pretensão de me deixar a vontade.

- Un bicchiere d'acqua, si prega.

Enquanto ela caminhou para buscar a água, pude perceber mais atentamente o cômodo. Nada tão diferente daqueles pelos quais passei na cidade velha. Móveis clássicos, corredores estreitos, papéis de parede acastanhados e um tanto desgastados. Sempre aquela velha mobília prensada em pequenos apartamentos, com janelas econômicas de luzes a escurecer tudo. Eram tantos detalhes, mas eu não estava com ânimo de vasculhar as histórias de cada peça. Fiz isto nos primeiros anos da Itália e confesso que estou cansado. São sempre parecidas: uma estátua de resina copiada do Degas, um abajur de bronze comprado num antiquário de Troyes e assim por diante. Preferi prestar atenção nas fotografias em preto e branco presas numa das paredes, que se penduravam numa forma harmônica e geométrica. Não conhecia a maioria das pessoas que lá estavam; umas poucas pareciam com alguns amigos da faculdade, outras me pareciam muito antigas, denunciadas pelas silhuetas imprecisas e tons de sépia . Parei a atenção numa estranha fotografia, que tinha um jacaré erguido entre ela e um senhor mais idoso. O claro da barriga do bicho contrastava com uma espécie de beirada de lago ou rio. Quando aproximei o meu rosto para observar mais detalhes, ela chegou com a água. Meio sem jeito pelo flagrante, perguntei apontando o indicador para a garota da foto:

- sei tu?

- No! È mia bisnonna.  Ela respondeu com um ar de severidade, quase que chateada, pelo que supus dos vincos na sua testa. E é claro que havia apreensão! A foto era tão velha que eu me perguntei como eu pude fazer uma alusão tão idiota? Obviamente, naquele instante eu estava ligeiramente constrangido e acredito que ela percebeu isto na minha face, pois me presenteou com um belo sorriso e explicou que a foto era de uma expedição na África de Giuseppe De Reali, que aconteceu em 1929. Quando terminou, permaneceu com o sorriso adornando seu rosto. Segundos, minutos ou séculos se passaram com aquela imagem até que ela se lançou num ligeiro salto para me abraçar e me beijar. As peças de roupa começaram a abandonar os corpos de uma maneira frenética. Meu blazer, o suéter dela. Em passos descompassados comecei a empurrá-la para a porta que parecia ser do quarto.  Meu sapato, a sandália dela. As mãos arrancavam tudo. Minha camisa, a camiseta dela. Ela estava sem sutiã e, quando comecei a olhar seus seios, encostamos na cama. Ela se deitou com a perna para fora e eu embasbaquei.

Aquele quarto era um verdadeiro santuário, nunca vira tantas estátuas de santos antes na minha vida. Pelos menos tão juntas assim. Tinha de todos os tamanhos e materiais. Cerâmica, madeira, bronze. Era um verdadeiro mausoléu de imagens de pessoas mortas. Imagino que o meu queixo estava caído quando o lencinho que estava no punho dela atingiu o meu rosto. Ela estava na cama, branquinha, emoldurada pelo amassado da colcha. O sorriso agora era malicioso, com um ligeiro mordiscar de língua e um olhar penetrante, que fitava o meu peito. Pus as minhas mãos nos seus quadris e puxei a calça para fora das pernas. Aproveitei para segurar a calcinha e as meias para também arrancá-las. Joguei a calça para o lado com força e ela atingiu um dos santos, o derrubou e arrancou sua cabeça, afastando-a poucos centímetros do corpo. Vi rapidamente a cena do falecido, porque a calça logo caiu e serviu de manto para o decapitado. Novamente pasmei! Matei o santo.

Ao que parece, ela não percebeu. Sentou-se na beirada da cama e começou a tirar o meu cinto, desceu a braguilha e o buscou enfurnado na cueca.  Engoliu-o de uma forma espremida e molhada. De início, foi apenas carinhoso porque ele não estava de uma forma adequada, teso por assim dizer. Também, com toda aquela gente me olhando, parecia que eu estava no meio da torcida do Roma, numa final no Estádio Olímpico. Os olhares serenos, a criança no colo do Santo Antônio, aquelas túnicas ascéticas não combinavam com uma presunção de depravação.  Mas vamos lá, creio que rezei calado para que todos me perdoassem e eu acreditei que era o certo a se fazer, por menor que fosse a minha fé.

- Congregação de santos, escutai minha prece. Rogo que passeiem pelos belos campos dos céus para que eu possa comer esta bela italianinha.

Parece que deu certo, pois algo intumesceu no meu ventre e já sentia aquela boca quente se mexer com vigor pela extensão do meu prazer. Ela pôs as mãos nas minhas nádegas, cravou suas unhas e afundou sua face com vigor.

- hummmmm – gemi intensamente.

Não tive dúvidas em retribuir. Peguei o seu corpinho e a arrastei para o meio da cama. Abri as suas pernas e dirigi minha boca para aquela vagina, com seus lábios rosáceos e molhados. Mas eu me esqueci da medalhinha de São Francisco que trazia no pescoço. Acabara de comprar no Vaticano numa espécie de redenção da fé, numa das milhares que fiz na minha vida. No instante que eu me aproximei, a figura do meu santo se alojou sobre o clitóris dela, com uma expressão mansa e humilde.

Nada mais aconteceu naquela noite. Mal me lembro por quais ruelas eu passei. De qualquer maneira, são todas iguais mesmo. Lembro apenas do Panteão que, se estivesse aberto, rezaria uma espécie de reclamação por terem estragado aqueles momentos com um conluio tão grande vindo das profundezas do Céu.

Profundezas?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O Grito


Foto tirada pelo autor no Centro Cultural Recoleta - Buenos Aires

O peso dos dias atarracados por um cotidiano intolerante arqueia as minhas costas. Dobro-me à vontade absurda do querer, que me transporta pelos caminhos obscuros dos desejos que se prendem tênues a alguns objetos, pretensiosamente chamados de conquistas. O sol atravessa o firmamento e, com sorte, uma lua cheia também o fará. Eventualmente uma chuva de verão lavará minha angústia. Esfriará meu rosto e os pensamentos que constroem uma ficção de mundo. Onde nada é tão real quanto a mentira do viver, do se relacionar com outros desejos, do compartilhar fatos com outros egoísmos. Sob os indiferentes caminhos solar e lunar um corpo para. Uma mente para. Uma vida mundana para na demência dissonante dos escapamentos, na opacidade cinza e fedorenta das fumaças, na deselegância de mendigos e meninos que correm erráticos pelas calçadas. Tudo para numa espécie de silêncio momentâneo com ares de eterno. Um calar tão imenso que prenuncia a inexistência, a ausência, a morte. Soterrado pela surdez, inconformado com o estático dos objetos e das pessoas, feito estátuas inexpressivas com olhares de peixe e seus perfumes baratos a catingar qualquer ambiente, eu me aquieto. Castigo um vodu de mim, um flagelo de gente apinhado de marcas de passados não tão bem passados. Martirizo minhas aspirações através de uma imundice de anseios, talvez receios, postados lentamente pelos anos que me trouxeram até este beco. Onde não há ninguém, exceto a solidão. Onde não há vozes, nem toques, nem cópulas. Meu corpo está inerte, insensível e desfalecido, numa espécie de prisão do destino. Não há dinheiro que compre fugas, ou determinação que as inspire. Apenas calo para acumular as minhas últimas forças, aquelas extraídas do que sobrou da minha vontade, e grito, Grito, GriTO, GRITO, GRITO, GRITO, GRITO, GRITO, GRITO.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A Paz do teu Beijo


Pega-me tranquilo. Na paz de libertar o meu corpo no teu. Eu não tenho certeza dos caminhos que o meu destino irá impor, nem quanto tempo sobrará na contagem daquele relógio. Talvez um instante não seja suficiente. Ou talvez séculos não sejam suficientes para encontrá-la e beijá-la.  Eu nem imagino os carinhos que o meu desatino irá dispor, nem quanto alento restará no decurso do eterno. Quero apenas consumi-la com a urgência de quem sou, por estas ruas e vielas que se deitam no meu cotidiano, pelas favelas de pensamentos onde estacionei a minha lógica. Nem quero dizer com isto que o falar é deselegante. Como uma prostituta ele se veste de tons berrantes para calar, e de cores sombrias para gritar. Numa espécie de gangorra que leva a ilusão do êxtase à prostração e põe na minha boca o hálito da indignação. Pega-me tranquilo no colo imenso dentro do conforto do teu corpo, onde os labirintos que levam ao prazer já foram desvendados pelas minhas mãos, pela minha boca e pelo meu pênis. Pega-me indócil em obter um último beijo, um último adeus que ficará na eternidade da minha lembrança.

sábado, 12 de outubro de 2013

Tempo Insignificante


As palavras de ternura, persistência, maturidade e abnegação são motivadoras, mas isto me faz lembrar algo mais obscuro. É dito que as palavras ritmadas pelo coração e a poesia são espelhos desfocados da alma, embora me contradizem ao me alumbrarem. Não sentir o toque de uma companheira é a pasmaceira da ausência infecunda de nós dentro de nós, que dicotomiza o querer e o desejar. Queria ter as palavras femininas, leves e contemplativas que trazem a emoção para o coração, na medida em que nele ressoa.   Eu não tenho vontade suficiente para me entregar ao conhecimento. Tenho uma relação leviana com os meus pensamentos, abandonando-os tão logo entram na maturidade. Posso dizer que os prostituo. Posso dizer que me prostituo ao ficar longe de qualquer abraço, ao ficar longe de mim, ao ficar sozinho. Onde está esta vontade? Em qual madrigueira foi largada a criança que antes existia em mim. Qualquer lugar longe de mim é confim. Qualquer espaço que não este é um traspasso do aceite. Qualquer mão que não outra é açoite na minha noite.

Evidências e imaginação são motores da argumentação. Porém, diferentemente do cientista metódico, o escritor procura a sugestão. Nada cria em si. Apenas na reflexão distorcida da sensibilidade é que se obra algo significativo. A ausência pode ser uma entidade da mesma forma que a abundância. A solidão pode ser um labirinto, ou a motivação da existência. Depende de como lemos o que se escreve. Depende de como a semântica cotidiana e coloquial influencia a compreensão. É claro que existem universalidades que transpassam séculos. É claro que existem genialidades que refreiam o tempo. O escritor está aqui como um canal do que se sente. Na captura semiológica do seu mundo, envolvendo-o numa prisão sem portas para o entendimento de que a alma é cativa da substância, mas feita de liberdade. E quando há o equilíbrio confesso das tendências do espírito, os minutos que giram os relógios são insignificantes.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Continuação, sobre a linguagem

Foto tirada no MoMA - New York - pelo autor

Eu creio que é difícil separar o que se escreve do que se pensa, exceto quando existem grandes limitações vernáculas. A filosofia da primeira metade do século XX tratou muito bem o assunto da correlação entre linguística e a natureza do pensamento. Este tema também fomentou na psicologia analítica os trabalhos de Lacan, e proveu muitos conceitos para toda a ciência da época. Não posso então desprezar o que eu disse a não ser por equívocos de interpretação que são devidos ao pouco conhecimento que se tem do interlocutor. Também porque a linguagem corporal está ausente e pode haver algum problema sobre o entendimento semântico de algumas passagens. Fora isto, o que escrevo sou eu: a mente que percorre conceitos vagos e amplos, que procura expor o intangível pelo acúmulo racional e seletivo de ideias, pelas escolhas que obliteram perdas, pelas perdas do que não pode mais ser recomposto. Escolhas e perdas, dois conceitos distintos que guardam em si um incômodo vínculo. Não existe escolha sem perdas e não existe perda sem escolhas ou a falta destas. Não é biunívoco, mas mesmo assim não perde a elegância semiótica. A palavra mapeia emoções pelo impacto da sua semântica nas imagens do inconsciente. Desta forma, embora não se possa precisar quanto que determinada frase possa tocar a emoção de quem te lê ou ouve (aspectos circunstanciais e ambientais também são relevantes neste aspecto), as palavras podem transpassar o limbo que separa consciente do inconsciente. Os poetas e grandes escritores parecem lidar melhor com os signos e ícones que atalham o caminho para o coração. E é necessário um mínimo de inteligência para “se deixar” levar.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Menina


Agora, quando todos os instantes podem ser adjetivados como derradeiros, numa linha de tempo intermitente de felicidades fortuitas que une o nascimento ao túmulo, tudo o que digo é que quando escrevia havia na minha mente o gosto por entender a questão da conexão da linguagem com a psique. É claro, caro leitor, que existe este aparte entre psique e matéria, não se discute. É claro que existe a distinção entre os acontecimentos e como o interpretamos. Fatos sempre rolaram pelos precipícios imaginativos que abismavam meus desejos das realizações. Por conseguinte, encovadas no fundo deste despenhadeiro da esperança, as frustrações gritam seu desespero. Lamúrias e queixumes de um velho apiedado, traduzidos por simples palavras. Obviamente coloquiais, porque descrevem de forma simples e solta a falta de estruturação de uma vida. Seus significados navegam pelo oceano da idade sem vínculos precisos um com os outros. São apenas traduções de momentos, amontoados no esquecimento daqueles que me conheceram, amealhados pelo destino e apenas vívidos na memória deste aqui que ora apenas diz.

Além disto, palavras, ou a escolha delas, permitem ao interlocutor atento ouvir o que está atrás da porta do corpo físico. Permitem sentir parcialmente os traumas de quem narra, a dor de fatos corriqueiros que nada representariam caso a entonação não denunciasse algo mais. Proveem o que falta à visão para transtornar nossa percepção com uma obliquidade alheia. Para descaracterizar todos nossos modelos e arquétipos, por mais precisos que estes sejam, independentes de quanta meditação a mente necessitou para ordenar a compreensão. O tom, os trejeitos, aquela ligeira rouquidão das vozes arrastadas pela garganta, roubadas do íntimo em que se apegaram e se trancafiaram, nos revelam pelo avesso.  

Esse exercício de ouvir é o que dificilmente se pratica nos nossos dias, permeados de urgências e barreiras psicológicas. Todavia, sei que é necessária uma harmonia entre ouvi-la e senti-la. Pois, se houver uma conspiração deste destino que cá me largou, um dia posso saborear as tuas palavras pela fome da minha sensibilidade, ávida em percorrê-la pelas entranhas onde a menina se escondeu. Neste futuro ainda muito incerto, gostaria de dar a mão para esta menina, abraçá-la e dizer que os sonhos não foram perdidos, apenas se espalharam. Poderíamos assim recuperar alguns. Quem sabe se não forem os mais importantes? Quem sabe se não serão aqueles que cessarão a tua busca, desprovida das lágrimas congeladas pelo passado? Mas há pouco tempo para isto.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Desabafo


Talvez o desabafo seja uma forma de libertar as palavras que se represava no coração. Elas não podiam sair porque seriam mudas, ou até inaudíveis neste deserto que nós nos enfurnamos. A aridez de um ouvir sincero, que procura nas semânticas o nosso próprio significado na vida, e com sorte na paixão. Eram palavras que estavam profundamente guardadas dentro do complexo íntimo do que somos, que queriam gritar sua própria liberdade, mas temiam pela surdez dos que estão do lado de fora. Moldavam sonhos e esperanças, angústias e tristezas, tudo enfim que, se misturados, podem deixar os vestígios de quem é a mulher que me seduz. Talvez uma delas dê para mim os rastros que me levaria a encontrar o seu caminho pelo destino. De tal forma que pudesse encostar o meu caminho no dela. Bem! Acho que aqui eu quase que plagiei uns versos da música Valsa Brasileira: “e ajeitava o meu caminho para encostar no teu”. Então vou também plagiar o verso final: “chegando assim mil dias antes de te conhecer”. Eu queria encontrá-la naquele momento antes de entrar no deserto, antes de que fosse maculada pelas vicissitudes que pressagiaram dias mais amenos, mornos dentro da explosão do nosso desejo de amar. Eu queria encontrar a menina sonhadora nos dias da adolescência, a mulher arrebatadora e confiante no início da vida. Eu queria encontrar a andarilha das ilusões que desenhamos com futuro, que nos acordava pelo avesso do exercício de sonhar. E nos acalentava no conforto da conquista. Eu queria encontrar aqueles olhos claros contemplando o mar infindo, e salpicando de pequenos reflexos de sol a lágrima que testemunhava sua felicidade. Eu acredito piamente que te encontrarei mil dias antes de te conhecer, onde esta menina e mulher parou, e começou a esperar.

sábado, 5 de outubro de 2013

Traduzir-se


Eu sou um leonino e quando nasci a lua perfilava com as estrelas da constelação de Câncer. Ademais, creio que por desconhecimento da abrangência da astrologia sobre as questões de personalidades, eu acredito que a mente pode transcender qualquer estereótipo que montamos a fim de facilitar nossa compreensão. Creio também que o verbo facilitar pode até ser de um simplismo inconveniente. Padrões existem para nos manter numa espécie de zona de conforto, como se fossem tranquilizantes administrados para nos acalmar ao pressupormos que sabemos quais serão os próximos passos de uma pessoa que se enquadra num modelo definido. Quando as atitudes são inesperadas, atribuímos imprevisibilidade e, em certo grau, nos frustramos. Há um ligeiro desalento na nossa compreensão quando nossa companhia foge daqueles padrões que custamos a montar pelos anos de relacionamento. Então perguntamos para nós mesmos “por que?”, “o que aconteceu?”, como se o comportamento alheio devesse se ajustar ao que imaginamos ser adequados, dentro do que internamente acreditamos ser aceitável. Se as pessoas não estiverem bem resolvidas, com seus medos e angústias devidamente encarcerados no porão da mente, começa-se um ciclo de cobranças. De um lado, aquelas perguntas do nosso íntimo emergem para a realidade. Do outro aparecem as refutações de que se está numa espécie de julgamento.

Isto me lembra dos meus primeiros grandes debates com a religião. Mais especificamente em relação a algumas imagens que apresentavam o séquito divino como se estivessem num palácio e o nosso Deus sentado no trono. Dos tempos medievais até hoje ocorreram a Revolução Francesa na França e a Gloriosa na Inglaterra. Instauraram-se democracias baseadas na representatividade popular, o muro de Berlim caiu e nem mais se lembram da Guerra Fria. Mas a imagem do imperador é forte, mesmo que entendamos que ela compõe o que normalmente se denomina como inconsciente coletivo. De uma forma semelhante, as pessoas as quais se imputam transgressões comportamentais se defendem como se estivessem numa espécie de julgamento, e se referem àquelas que evocaram problemas como juízes inclementes que não observam atenuantes. Estes são os modelos que traem nossas mentes. Este é o maniqueísmo que as pessoas levam para dentro de suas interpretações. Indistintamente, podemos ser levados por normas sociais, tácitas ou expressas. Em muitos casos podemos ser condicionados a calar, ou biologicamente impulsionados a reclamar com base em fragmentos de ensinamentos sociais, aprendidos de formas não estruturadas.

Nunca deixe de ser quem você é, deveria ser a frase analgésica para todas as dores da alma. Porém, quem eu sou? Ou melhor, como alguém que esteja do lado de fora do meu íntimo pode saber quem eu sou? Para complicar eu ainda posso perguntar como alguém que está do lado de dentro do meu íntimo pode saber quem eu sou? Eu acredito que todas essas perguntas, e aquelas que ainda fazemos para entender o nosso lugar na sociedade, não carecem de respostas porque a pergunta não pode ser formulada. Saber quem você é pode ser útil para o tratamento de distúrbios, mas é questionável quando se tem um mínimo de felicidade. Além disso, a correta interpretação das perguntas (e subsequentemente das respostas) é parte de um processo demorado de autoconhecimento que tende a tornar o mundo mais agradável para se viver. Ou seja, felicidade pela aquiescência com as nossas limitações emocionais e cognitivas. Se tivermos a felicidade na maior parte do nosso cotidiano, por que devemos procurá-la? Ou não a temos?

Traduzam-se!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A Arte e o Artista


Uma das coisas importantes que devemos considerar é que a arte sempre é um grito. A grande questão, que se alimentava das incertezas embutidas na confusão do cotidiano, é ouvir o eco que este grito deveria causar em outras pessoas, juntamente com a constatação de que nem todo mundo está preparado para enxergar espelhos de coração, quiçá de alma. A competência da explanação deveria se aliar com a vontade da interpretação. Os vestígios do equilíbrio entre estes dois lados da balança se esconde nas semânticas um tanto obtusas da palavra competência (conhecimentos, habilidades, disputa, conflito). Em outras palavras, para “gritar” é necessário conhecer, criar habilidades, disputar com o consciente e entrar em conflito com a sua vida e o que te cerca. Estaríamos preparados para isto? Poder-se-ia embrenhar por um caminho confortável, que prescinde de uma dedicação e um aprofundamento maior em questões que não dominamos por completo. A relevância desta superficialidade pode não ser completa e pode demandar uma verdadeira jornada para o interior da mente. Isto é, ao expor completamente sentimentos primeiramente mostramos para nós mesmo quem somos na essência. Nem sempre a constatação é agradável, como poderia dizer o meu grande ídolo Van Gogh. Nem sempre encontraremos no profundo íntimo algum conteúdo que valha a pena. Não sou daqueles que acreditam que existe uma alma pura e isenta dentro de nós. Ao contrário, pode existir toda espécie de vício ou transtorno que nosso consciente controla pela racionalidade. A formação do homem explica isto muito melhor do que a formação da humanidade. Há um ser dentro de nós afugentado e acantonado. Libertá-lo pode transformar a vida num martírio constante. Além disto, pode expor nossos mais temerosos presságios acerca da vida e das pessoas. É um caminho sem volta e é o caminho do artista. 

São Jorge - Saint George

  Imagem gerada pelo Midjourney São Jorge! Mostraste a coragem misericordiosa que me livrou do dragão que sempre carreguei em meu coração. I...