"1811 Kleiderschrank anagoria" by Anagoria - Own work. Licensed under CC BY 3.0 via Wikimedia Commons - http://commons.wikimedia.org/wiki/File:1811_Kleiderschrank_anagoria.JPG#mediaviewer/File:1811_Kleiderschrank_anagoria.JPG
Tinha o passado colecionado em fragmentos no armário das minhas lembranças. Peças que não se encaixavam na montagem de uma vida que, por vezes, foi baldia, e por vezes foi arrazoada pelas trilhas herdadas pela necessidade. De cada época guardava um pedaço de quem fui. Da adolescência veio um pequeno caderno azul de poesias, que contava e lamentava as incertezas que se deitavam no futuro. Tinha olhares fugidios, que a olhavam como uma musa inatingível, no véu das convicções amorosas que ainda não se firmaram no coração. Adorava-a como a um ícone e construía reinos na imaginação de uma vida possível apenas nos delírios de paixão. Sua voz não tinha sons, seus olhares eram frios como o de animais. Seu corpo era tenro e branco, com longos cabelos que deslizavam pelas costas desnudas. Seu toque era insensível e o seu não corroeu as entranhas do meu desejo por muito tempo.
Aquele não me levou para um sim incerto. E no final desta nova época eu tinha no armário os diplomas e certificados que não foram enfileirados na parede, uma casa imensa, carros e vários elementos e resquícios da imensa tristeza de estar ao lado de uma estranha. Um quadro de parede que eu não gostava; uma jarra decorativa que nada me trazia, além de eventualmente água fresca. Havia palavras que nem esbarravam no que eu era e eram repetidas como um macaco hidráulico na eternidade da existência. Não tinha cartas apaixonadas, guardanapos de jantares românticos, fotografia de beijos e estas travessuras que fazemos na torpe do encantamento. Não havia nada no meu peito e eu decidi não somente esvaziar os armários, mas também não ter mais armários.
Atravessei anos ao lado de pessoas passageiras. Quando alguma coisa, ali jogada na mesa ou na minha vida, pedia armário, eu lhe dava o lixo. Quando alguma palavra tentava entrar no meu íntimo, eu a expulsava. Quando alguma lembrança tentava se tatuar na minha vida, eu a esquecia. Conheci uma paixão que, do mesmo jeito que veio, se foi para além dos domínios da fascinação. Conheci mais amigas que se deitavam, do que uma alma que pudesse gritar comigo pelos guetos que nos separam filosoficamente da multidão. Talvez ela (enfaticamente “ela”) não apareceu porque eu não lhe dei tempo, nem espaço, nem chances para mostrar seu olhar de menina. Talvez ela ainda não apareceu porque eu não lhe dei um armário para guardar seus vestígios de mulher.
(ficção)
Armários vem e vão até se abrir aquele que mesmo mais abarrotado que esteja seja o que possa acondicionar o melhor do ser.
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