Antes eram os fragmentos das paixões. Agora os anos os tornaram mais contemplativos. Com o tempo, o pensamento adulto se transforma numa mistura de lógica e emoção, e a intensidade dos arroubos é entregue mais pela personalidade do que pelos hormônios.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Sobre o Fim da Inocência
Escreverei sobre assuntos que talvez não estejam tão bem ligados. O que pode ser até proposital, porque eu não consigo identificar em mim as razões pelas quais eu estou tão desconfortável nestes últimos anos. São pequenos fatos, eventos, palavras e ideias que incomodam. Aparentemente, elas não estão acopladas de forma a proporcionar uma teoria reveladora, se é que existe algo semelhante. Se existir, caberá aos sociólogos e antropólogos interessados comentar o que pensam sobre a foto que ilustra este texto. Eu não penso, apenas sinto algo que entope ainda mais a minha sinusite, agravada pelo ar de São Paulo.
Estes momentos vêm de todos os lugares. Estão na bisbilhotice de ouvir conversas alheias no restaurante; no ar rancoroso com que as pessoas comentam sobre as instituições; no consumo indiscriminado de crack pelas ruas desta metrópole; nas barbáries que se estendem pelas páginas dos jornais e revistas; na malversação de políticos que tanto prometeram há alguns anos; na imensa miséria humana que chega aos nossos pés, saltitando nos sinais, dormindo ao relento, depositando fezes e seus cheiros pelos caminhos.
Mas desta vez a aparência decreta o fim da inocência. Não há mais sorrisos para adornar o semblante, nem vestígios daquela serenidade ocasionada por uns poucos sonhos, que ainda entorpeciam a mente. A sisudez da face e a escassez de expressões traduzem uma pessoa perdida dentro do labirinto dos seus desejos. Trancafiada pelas sequelas das suas tentativas de felicidade, já que associou a alegria da vida à satisfação das suas cobiças. Esqueceu-se de quem fez o plano e do quando se imaginou a existência de um futuro e de realizações. Esqueceu-se de quem era, ou não poderia supor por desconhecer o seu íntimo. Obviamente, neste caso a ignorância é o motor da vontade. Deve-se rumar para o conhecimento. Porém, o “como”, ou o método, é a ferramenta apenas dos sábios. E definitivamente hormônios não combinam com sabedoria. Quando mais jovem, mais somos impelidos pelos instintos e pela necessidade de suprir os vácuos emocionais que surgem desde que saímos das fronteiras da infância. Não se entende aquele corpo, não se conhece as muralhas psicológicas que foram construídas nos anos imberbes. Mas naturalmente avançamos quase como cegos na velha estratégia de se errar para aprender. E sempre se erra muito neste processo quase que caótico. Encontram-se pessoas. Às vezes constituem-se famílias, têm-se os filhos e vive-se de uma maneira relativamente confortável até os dias derradeiros da velhice. Assim, através de gerações o mecanismo social nos impele por algo que se entende tacitamente por felicidade. O que acontece desde os tempos tribais. Há algo semelhante nas aglomerações preponderantes neste mundo. Há algo que normatiza, mesmo que tacitamente, o que se deve fazer para ser feliz. Viver em sociedade é algo como acumular signos e representações, que montam conceitos e valores e nos levam a condutas e comportamentos.
Escrevendo desta maneira, parece que até defendo as consequências semióticas no plano do indivíduo. Porém, não é apenas uma questão de defesa, mas da existência em si de um campo de interpretações derivado exclusivamente da inserção em sociedade. A significação do que está escrito aqui, e em qualquer obra com heurísticas filosóficas ou névoas literárias, pressupõe o crivo social, em maior ou menor grau. O que é belo (ou aceito) neste bando que de forma contumaz denominamos como povo, ou até país, pode não ser tão belo para outras tribos ao redor do mundo. Salvo poucos esclarecidos, ninguém parece livre do sistema de valores da sua tribo. E no mundo globalizado a questão parece ainda mais complexa porque existem tribos dentro de tribos, intersecções culturais, dispersões geográficas de ideias e patetices justificadas para aglutinação de interesses. A política deveria ser o cimento de toda a mixórdia de interesses, mas os tempos inocentes já se foram. Temos nossos gostos direcionados pelos predadores sociais. E quanto mais alienados são os indivíduos, numa espécie de preguiça mental que gera a inércia e a inépcia social, mais conduzidos eles são. É uma lei antiga que eu conheço desde os tempos da minha infância: emburrecer para dominar. O homem chegou à lua, lançou o mote da paz e amor dentro dos movimentos hippies, derrubou o muro de Berlin, ampliou o acesso às informações e comunicações, mas continua burro, sem capacidade analítica para se entender no contexto histórico. Portanto, todos seguem o que se entende por caminho da felicidade.
Obviamente há variações comportamentais e outras formas de valores sociais ou grupais cujo conhecimento não prescinde de um prévio contato com a Antropologia moderna. De qualquer maneira, é do próprio Claude Lévi-Strauss a citação “a humanidade está constantemente às voltas com dois processos contraditórios, um tende a criar um sistema unificado, enquanto o outro visa manter ou restaurar a diversificação”. Mas provavelmente isto foi num tempo anterior ao seu “Tristes Trópicos”. O desencanto leva a mentalidade a assassinar seus conceitos. Alguns deles tão arraigados que extirpá-los da consciência demanda algo próximo à desilusão ou prostração. Decerto, quando apenas eliminamos, sem o preenchimento dos vácuos com a lucidez dos anos ou novos momentos de reflexão, tendemos a nos sentir também esvaziados. E é nesse momento que decretamos o fim da inocência. Nada novo virá apenas revestido pela elegância do pensamento, ou pela eloquência e simpatia de quem nos transporta. Nada novo virá de uma forma gratuita ou seduzida pela imagem que fazemos do pajé ou chefe tribal. Ou ainda daquele identificado como mestre, curador da imensa obra humana. Resumida em uns poucos livros, é claro! Para estes exercerem o domínio existe a necessidade de se criar elementos tão antigos quanto aqueles que existiram no tempo em que os aglomerados humanos se estabilizaram ao inventarem a agricultura. Cria-se o céu, prometido àqueles que seguem alguma espécie de regramento, tácito ou não. Cria-se o inferno para aqueles que se desviam. Cria-se o protetor, que cuidará do repositório obscuro do dito conhecimento. Porém, quando se elimina o céu e o inferno, bem como consequência o processo maniqueísta de classificar as pessoas, elimina-se também o protetor. Assim estaremos muito sozinhos, mas livres. É algo parecido com o escolher da pílula vermelha em Matrix. Quebrar todos os vínculos que a inocência enraizou em nosso ânimo, abre a consciência para a dura verdade do existir.
É neste contexto que histórias vão surgir e montar uma literatura livre, além de obviamente não comercial.
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