Talvez por um descuido na minha formação, ou talvez pela maneira arrazoada como trato os problemas e, por conseguinte, o desconhecido, eu não sou um frequentador assíduo de templos ou locais eclesiásticos. Exceto pelo valor histórico e humanístico das edificações e objetos, bem como sua importância semiótica (motivos mais do que justos para eu visitá-los) eu sempre pensei que a igreja existe no meu coração. Fora dele existem os eventos onde eu aplico o meu livre arbítrio. Às vezes as situações são factíveis de interpretar, outras vezes nos remetem para conjecturas fantásticas. O que não conheço me incomoda, ou incomodava, mas nunca utilizarei uma explicação através de meios impossíveis de se comprovar. Prefiro um sincero “não sei” às especulações mirabolantes. Todavia, dentro do meu coração é onde eu posso encontrar a paz e o divino para prover significação para os meus dias. Pois eu sou um físico. Não no sentido de ofício, mas de formação. E ser físico não é fruto de oportunidades fortuitas que o destino te presenteou. Ser físico representa uma escolha profundamente sedimentada nas minhas convicções. Porém, neste momento eu gostaria de não tergiversar através de estereótipos elegantes ou maquiavélicos do conceito desta formação. As minhas convicções concernem com a questão da indomesticabilidade do meu pensamento, da forma como eu emprego a heurística para prover substância e certezas relativas ao meu raciocínio, e principalmente como eu controlo a emoção para me isentar das preferências de escolha. Poderia agora expandir a frase para: “eu sou um físico que carrega uma medalha de São Judas Tadeu no meu peito”. Mas não sou católico, na assertiva mais aceita da adjetivação. Isto provocou uma espécie de indignação num garçom que conheci em Milão. Ele abriu seus braços quase na amplitude de aplicar um abraço, olhou para o belo teto vitral da galeria Vittorio Emanuele, embora procurasse representar que fitava os céus, e montou uma expressão facial como se dissesse: perdoe-o, ele não sabe o que fala! E eu ainda acrescentei: comprei no Vaticano, e banhei por três vezes na primeira pia batismal que encontrei na Catedral de São Pedro. A expressão virou um balançar de cabeça que dizia: não, não, não, não. Você deve estar pensando por que três? Ah! Na Cabala o número três significa luz. Mas por que não sete, que representa o triunfo do espírito sobre a matéria? Será que utilizei a numerologia, onde o número três regula a criação e a criatividade? Ou utilizei o sistema pitagórico, onde o três é reservado para os artistas e escritores? Bem! O número três foi escolhido apenas por um acordo entre eu e o meu filho para estabelecermos um ritual mínimo, e o seu significado é ainda mais minimalista: gostamos dele! Afora o gracejo, este sou eu: livre, mas que respeita a necessidade de rituais e celebrações com o divino, e que também sente falta do entendimento do meu significado dentro do mundo, dentro da existência e da humanidade.
Antes eram os fragmentos das paixões. Agora os anos os tornaram mais contemplativos. Com o tempo, o pensamento adulto se transforma numa mistura de lógica e emoção, e a intensidade dos arroubos é entregue mais pela personalidade do que pelos hormônios.
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
terça-feira, 2 de setembro de 2014
O Fim do Romantismo
Ela: cansei! Quero ir embora.
Ele: para onde?
Ela: para qualquer lugar longe de você.
Depois disso, o máximo que consegui foi ligeiramente virar o rosto, abaixar a cabeça e olhar o chão. Queria encontrar um lugar para me esconder, para derramar estas lágrimas que insistem nos olhos. Queria me esconder de tudo. De mim, das pessoas do trabalho, da família. De todos e de tudo num rompante de desejo, devidamente bloqueado pela impotência da vontade.
Alguns minutos se passaram dentro de um instante quando pensei que a cobiça pelo desaparecimento era causada pela humilhação, e encerrada neste curto diálogo à meia-noite. Mas não enterrada no esquecimento, nem naquelas imagens que a mente guarda no limbo da percepção. Algo que não existe até ser despertado. O luar penumbra a minha nuca no exato momento em que levanto a cabeça e vejo o seu vestido ondular no longe. Só um grito a alcançaria, mas balbucio. Ah! Os sussurros de êxtase já a abandonaram há muito tempo. Os carinhos estavam preguiçosos, os beijos protocolares e o sexo era apenas sexo. Como se pudesse dizer apenas sexo algo segmentado em longos intervalos. A cama não tinha mais a lascívia de outrora.
A gênese desta hora está no romantismo, ou na sua ausência. Onde eu o esqueci? Quando ele foi embora para logo a levá-la? Não sei se choro por ela, ou por mim. Não mais a quero, é certo. Talvez queira aquela que conheci. E talvez ela ainda a seja. E eu não sou aquele que a conheceu. Ele morreu em alguma frustração, ou no processo de desfalecimento gradual que passei pela vida e que ocasionou o desmerecimento da felicidade. Porém, eu não falo de pieguice, de infantilizações ou alucinações exageradas da realidade. Falo do romantismo que a olha profundamente nos olhos e, despido de palavras, diz para ela que a desejo como nunca antes a desejei. Em todo dia, todo momento que sinto a sua presença, delatada ou não pelo seu perfume preferido. Falo do romantismo que a abraça diante dos seus infortúnios e diz para ela, sem as palavras, que ali está o refúgio de todos os problemas. Um cantinho no meu peito para ela sonhar. Quando falo com palavras, estas soam como poesia. Como algo que desenha um sorriso no canto da sua boca.
Não sou filósofo para pensar nas razões, nem quero, o fato é que o meu toque não é nada além do tato. O tato do meu beijo não é nada além de um carinho, e o carinho não é nada além de um toque. Eu mesmo não sou nada além de um homem comum, que passa pela vida sem pressa. Que apenas passa.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Pirâmides
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pyramids_of_Geezeh.jpg
No WECIQ2006 (primeiro simpósio sobre computação quântica no Brasil) eu assisti a uma palestra do Amir Caldeira, que na época era o físico mais citado da nossa terra. Em determinado ponto ele comentou sobre a possibilidade de confinar elétrons num arranjo piramidal dentro de uma estrutura arseneto de gálio. Simplificando, o confinamento destes elétrons na estrutura possibilitaria a observação dos efeitos quânticos que precisamos para a construção de um computador quântico. Além disto, e mais importante, o Caldeira enfatizou que uma estrutura deste tipo poderia satisfazer todos os critérios de Di Vincenzo.
Xi! Apareceu uma nova figura com nome italiano! Tutte buona gente! Di Vicenzo é um pesquisador da IBM que propôs cinco critérios que, se obedecidos, levariam à implementação de um computador quântico que definitivamente funcionasse. Em outras palavras, aqueles 20-25 anos que se estimavam para uma versão comercial de um computador quântico poderiam estar superestimados. Bem! Oito anos se passaram e ainda não temos nada parecido na Apple Store. Parte disto se deve a questão de que um computador não é somente feito pelo hardware. Há também a questão do software. Ou, ainda mais fundamental, a questão matemática do software,
Mas, por que queremos tanto um computador quântico? Os computadores convencionais nãos nos servem? Já podemos tocar nas telinhas, ver objetos em três dimensões, jogar com impressionante qualidade visual e ótimos efeitos sonoros, falar para que eles nos entendam, etc. Porém, os computadores ainda são burros. Por mais funcionalidades que adicionemos neles, comercialmente não temos nada além da capacidade de processamento de um cérebro de uma mosca porque tudo fica limitado a algoritmos ou programas que são armazenados e executados no computador. Se o computador quântico puder ultrapassar esta barreira algorítmica, com uma rapidez monstruosamente maior, certamente ele viria de encontro para promover uma nova revolução na humanidade. Quem sabe se não seja possível implementar a “verdadeira” inteligência artificial?
Mas nem tudo são flores. Em 2000 o Clay Mathematics Institute of Cambridge anunciou o que foi denominado como The Millennium Prize Problems. Ou seja, sete problemas cujas resoluções darão prêmios de um milhão de dólares cada. De lá para cá, apenas um deles foi solucionado, exatamente a conjectura de Poincaré pelo russo Grigori Yakovlevich Perelman. A despeito do folclore de ter um cientista emblemático barbudo e desempregado, que recusa por duas vezes um prêmio de um milhão de dólares (ele também recusou o prêmio EMS e a medalha Fields), um dos problemas não resolvidos da lista do Instituto Clay é sobre a equivalência dos problemas P e NP. Em palavras, estas siglas significam problemas fáceis de achar a solução, para a primeira, e fáceis de verificar a resposta para a segunda. Além de muita matemática para ambas. A questão é que este é o tema central que definirá as perspectivas dos computadores quânticos. Os computadores convencionais trabalham melhor com os problemas P, ao passo que os quânticos apenas evoluíram para algo que chamamos de BQP, uma espécie de superconjunto do P. Se a humanidade conseguir efetivar que os quânticos lidem eficientemente com problemas NP, o futuro seria muito promissor, já que haveria (ou poderia haver) sistemas híbridos que lidassem convencionalmente com os problemas P e quanticamente com os problemas NP.
Para finalizar, volto para a nossa viralatisse. Tínhamos os recursos humanos, a vontade e a vocação científica para encarar os desafios deste grande projeto. E por que não o fizemos? Como nação, perdemos muito tempo com questões que, a meu ver, são circunstancias, efêmeras ou irrelevantes. Enquanto deixamos aquelas, que evidentemente poderiam subsidiar a construção de um país mais próspero, ao esquecimento pela falta de priorização. E assim nossa reforma política foi para o ralo, deixando eleições caríssimas consumirem os recursos do país. Tratamos de assuntos importantes, como a pobreza, com soluções momentâneas, que também sangram o Tesouro e deixam um legado tão curto quanto o das mentes que o idealizaram. Discutimos ideologias tão arcaicas e obtusas quanto os objetivos daqueles que promovem a discussão. Tudo que está a nossa volta demanda reformas, que são sempre postergadas para os próximos mandatos. Apenas latimos para o futuro e para o mundo, mas temos medo de viver neles, confirmando sempre a tese do Nelson Rodrigues.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Peter Brian Medawar
http://pt.wikipedia.org/wiki/Peter_Brian_Medawar
Mas não importa, o fato é que quando visitamos a Recoleta os argentinos falam com orgulho das tumbas dos seus laureados, e podem citá-los. A gente fica com Pelé, Senna, Guga e uma penca de irrelevantes políticos. Os argentinos falam com (merecido) orgulho sobre Ricardo Darín, enquanto aqui, salvo raras (e antigas) exceções, somente citamos nomes das versões atualizadas e tupiniquins das óperas-bufas, que inundam nossos cinemas e se propagam como comédias. Nem vou me prolongar muito nesta fúnebre e chuvosa quinta-feira, com os brasileiros de luto e baixa autoestima pela vergonha de um sete a um que não tem a mínima importância. Apenas me permitam citar novamente o sempre moderno Nelson Rodrigues ao dizer “o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes”. Não é o que parece pelas ruas e conversas pescadas, infelizmente.
Sempre grande Nelson. Tão grande que esta famosa frase é citada como sendo de autoria de Arrigo Sacchi, ex-técnico da Itália, que a usou sem fazer referência ao autor. Pois é! Primeiro mundo também rouba ideias, e é neste contexto que eu gostaria de falar sobre a Pirâmide de Arseneto-Gálio na próxima postagem. Nada a ver, e tudo a ver. Quanto à frase, é possível que tenha sido mesmo do italiano, o que não desmerece a afirmação de que primeiro mundo também rouba ideias. Mas Internet aceita qualquer besteira. Ao comentar a frase com meu amigo Érico ele se lembrou de outra atribuída a Abraham Lincoln, o que me faz desconfiar de tudo que se lê por aqui (incluindo esta postagem): "The problem with internet quotes is that you can't always depend on their accuracy".
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Onde está a poesia? (Final)
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Redheart.png?uselang=pt-br
Não! A poesia está no coração.
Tenta-se a métrica ritmada, o formato disposto em versos e a
sonoridade de rimas para tentar induzir algo como música, cujo ritmo poderia
domar os dragões do desejo, obstar qualquer leitor ante os precipícios da
melancolia, ou simplesmente ecoar no íntimo da personalidade. Nesse sentido, a
poesia empresta à literatura elementos da música, como o lirismo, a harmonia, a
dinâmica temporal, a ressonância e (por que não dizer?) o timbre. Mas ela está
no querer. Nunca estará no acaso. A poesia pode estar numa conversa com um
pescador esquecido na longínqua Barrinha (Ceará), ao explicar com firulas
retóricas como ele avança 200 km mar adentro e retorna na mesma praia alguns
dias depois. A poesia pode estar em algumas passagens da maravilhosa Herta
Muller, ao contar o sofrimento das pessoas nos campos de trabalho russos que se
disseminaram pelo país após a II Guerra.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Next Station, Anhangabaú
http://commons.wikimedia.org/wiki/Alan_Turing#mediaviewer/File:Turing_Plaque.jpg
Em 2006 eu fui penetra no primeiro evento sobre computação quântica no país, realizado no Rio Grande do Sul. Mas não vou falar que foi em Pelotas para não zoarem comigo. Consegui entrar como uma espécie de representante da USP e, para parecer que não estava boiando tanto, tive que manter a minha boca calada o maior tempo possível, e fazer cara de coruja atenta. Penetra mesmo, mas bem intencionado. Larguei a física na década de 80 traindo-a com a ciência da computação. Ocorre que neste século as duas ficaram amigas em torno da QTM. Para quem não sabe, o “T” da sigla é do Alan Turing, o primeiro a descrever como uma máquina que ainda não existia deveria funcionar: o computador. Tecnicamente, todo computador é uma máquina de Turing, e agora vocês podem suspeitar o que é o “M” (machine). O “Q” é exatamente a aliança que ligou as duas áreas do conhecimento, ou seja, a quântica. Como todo interessado em novas fronteiras da ciência da computação, especializado em criptografia, eu precisava me inteirar sobre o assunto. É uma boa intenção, não?
Bem! Continuarei depois neste blog para explicar a pirâmide de arseneto gálio, os critérios para viabilizar um computador quântico, a questão que vale um milhão de dólares (equivalência P x NP), entanglement (eu prefiro a tradução literal: emaranhamento), onde tudo é processado e o que eu estou fazendo aqui?
Tudo o Que Tenho Levo Comigo - Herta Müller
“A urgência do desejo e a perfídia da felicidade há muito fazem parte do meu passado”.
“Uma velha russa a abriu, pegou o carvão e me mandou entrar. O quarto era baixo, a janela ficava na altura do meu joelho. Sobre um banco estavam duas galinhas magras e cinzentas. Uma das galinhas tinha a crista caída sobre os olhos, balançava a cabeça feito pessoa sem mãos com o cabelo caído sobre o rosto”.
Confesso que é difícil caracterizar este livro da Herta. A narrativa te transporta de amarguras a encantos, de jocosidade a graça. Monta cenas de tristezas sem melancolia, aquiescência sem mágoas. Há passagens em que o discurso vasculha o íntimo, mas longe de teorizações psicológicas ou sociológicas. São visões de um jovem que amadurece no constrangimento de uma situação imposta pelo stalinismo, que utiliza seu esforço, e seu corpo de ascendência alemã, como um despojo de guerra. Principalmente dentro de cinco anos que o protagonista fica enclausurado numa espécie de campo de trabalho forçado. Um dentre vários que foram feitos para a reconstrução da Rússia após a Segunda Guerra Mundial.
Entretanto, o entendimento que este jovem tem da conjuntura não proporciona mágoas ou ressentimentos. Apenas o induz a uma adaptação a uma situação que foge do seu controle ou vontade. E neste ambiente ele constrói outra vida, com personagens que são colocados ao seu lado na penúria, ou fazem parte daqueles que mandam ou se aproveitam da situação. Além de outros inventados, como o Anjo da Fome, que possui a onipresença na míngua dos seus dias e o mantém no limbo da vida. E assim ele passa pelos dias e narra a significância dos pequenos momentos e objetos deste novo mundo. Detalhes que passariam despercebidos na “urgência dos desejos” ou na “perfídia da felicidade”, mas assumem uma importância quando todo o restante lhe é extirpado. Logo de início aparece a erva-alheira, que nasce na aleatoriedade dos campos e fendas do chão. Sabe-se então qual é a melhor época do ano para comê-la, ou acrescentá-la na sopa. Brinca-se com a semântica do seu nome, com as fibras que retiram o mastigável do seu sabor no inverno. Conhece-se os diversos tipos de neve, a melhor pá para se retirar o carvão dos trens, a mistura correta de cimento para que não se quebre os quando se armazenados. Conhecem-se pessoas estranhas, como o marido que toma a comida da mulher anuída por tradição. Sabe-se dos piolhos e dos pentes artesanalmente construídos para retirá-los da cabeça. Das galinhas magras e cinzentas e de pessoas sem mãos. Vive-se enfim num mosaico, ou num calidoscópio acinzentado pelos lugares esquecidos pela história. Mas se vive na narrativa deste excelente drama.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
Bate-papo com Paulo Andrade, ou Besteirol Desestruturado
24/06/2014
É Paulo! Esse clima de Copa me faz lembrar que eu estive em
outra torcida recentemente. Na arquibancada eu torcia fanaticamente para que as
“cordas” puxassem um universo mais elegante. Daquele tipo de uma estética
lógica ímpar, onde todas as conclusões são derivadas de um pequeno conjunto de
afirmações e axiomas simples. Infelizmente eu não tenho mais o domínio da
instrumentação necessária para compreender os detalhes, os dribles, as firulas
e as estratégias da evolução matemática que prometia revolucionar o âmago da
Física. E ela me parecia um tanto complexa, a tal ponto do Brian Greene
filosofar em algum dos seus livros se o mundo real não seria complexo de fato.
De qualquer maneira, eu me comprazia com a ideia de que a inconstância na
aceleração da expansão do Universo poderia ser devida às flutuações de bramas
próximas, ao invés de uma sinistra matéria escura mutante, cujas hipóteses de
existência se ancoram em noções extravagantes sobre a realidade das coisas. Whatever!
O Paul, teu xará, já foi laureado. Aquela matemática maluca que inseria
equações nas contorções estranhas e 10-dimensionais da geometria Calabi-Yau, ou
11-dimensional na Teoria M, ou ainda 12-dimensional na Teoria F, parece ter
cansado os mais veteranos e assustado os iniciantes, que temem perder suas
carreiras num espaço pouco compreendido. No fundo, qualquer outra teoria que
procure explicar o Modelo Padrão, atolado de partículas, precisaria de mais
partículas. E o que aparentemente temos de melhor é a supersimetria.
Para aqueles desavisados que insistiram na leitura até aqui,
é importante citar que este artigo que o Paulo deixou na minha linha do tempo
advém de uma discussão que começou nos anos 70, com a mais assimétrica coisa que
se conhecia à época: férmions (partículas) e bósons (forças). Precisava-se de
uma teoria que explicasse as lacunas do Modelo Padrão. Ou seja, por que umas
partículas são mais pesadas que as outras? Por que existe um determinado número
de férmions? A explicação seria a supersimetria? Pois é! Uma simetria deve
conjugar comportamentos destes dois componentes da Natureza, que tudo formam. E
neste contexto foi importante a observação de que o bóson de Higgs pode decair
em outras associações de partículas e forças para que o Modelo Padrão tenha
suas interações teóricas comprovadas experimentalmente. Faltava a partícula.
Também é importante dizer que existem dois grupos no LHC, denominados CMS e
Atlas. Se as observações forem feitas pelos dois grupos independentes, a chance
de erro toca o improvável.
Mas nem tudo são flores. Para que toda a edificação do
Modelo Padrão seja sólida, para que não haja um prostíbulo de partículas se
interagindo (que no final das contas nos levaria imediatamente a um enorme
buraco negro), é importante postular a supersimetria e, consequentemente, achar
as “supercompanheiras”. O Modelo Padrão não explica tudo. Funciona analogamente
quase como a teoria clássica da mecânica newtoniana (funciona, mas há detalhes
a serem investigados). O LHC parece ter energia suficiente para que seja
possível criar as pesadas supercompanheiras e colocar o amálgama na nossa
compreensão da Natureza. Porém, até o momento, elas se escondem.
30/06/2014
Poderá existir algo que transcenda nossa percepção? Não
veríamos o Universo de uma forma subjetiva? Neste contexto, ainda estamos na
classificação que Aristóteles deu ao (digamos) Grupo Jônico: observadores da
Natureza. Obviamente, a quântica mostra (e ninguém consegue contestá-la) que
definitivamente Deus joga dados. Deus, Tao, Lula, seja lá o que nossa
arrogância de criação onipresente cegue o discernimento. O fato é que todos os
eventos não passam de borrões de realidade e nós, organismos biológicos, cujos
sensores energizados permitem apenas observar uma fração de realidade, justamente
aquela necessária para manter nossas vidas animais, moldamos a compreensão para
transcender as necessidades imediatas. Com um instrumental limitadíssimo, é
claro.
Daí, cada encruzilhada que passamos nos leva a outra
encruzilhada. Por exemplo, dentro do que eu me lembre da Teoria M, existe uma
experiência sugerida de criação de universo. Isto é, junta-se um bando de
físicos e engenheiros numa espécie de LHC planetário (ou galaxial, quem sabe?),
acelera-se algumas partículas e bum! Cria-se um universo novinho em folha
através de um big bang. Depois de frações de segundo, a brama se separaria da
nossa e continuaria a criar seu próprio espaço. Poderíamos pensar em ajustar
algumas constantes físicas para gerar mais planetas, ou diminuir a quantidade
ou intensidade dos raios cósmicos para termos mais chances de vida. Ou seja, um
dos físicos poderia ser o deus do trovão, o outro deus dos mares e o
coordenador seria Odin. O que é isto? Hierarquia de deuses? Seremos deuses num
futuro (se não destruirmos nosso planeta antes)?
O curioso é que ao se perscrutar os céus não percebemos nem
um mísero sinal de radiação gerada por vida inteligente. Universo burro! É
claro que quando o SET foi estabelecido pouco se falava das circunstâncias
especiais que fizeram este belo planeta ter chances de vida. As mais
importantes foram o bombardeamento inicial de cometas aquosos e,
principalmente, a trombada com Thea, que criou a Lua (protegendo-nos de objetos
espaciais e estabilizando o clima), esquentou e proveu momento angular para o
núcleo do planeta (o que possivelmente criou o campo magnético que nos protege
dos raios cósmicos e do vento solar) e deformou nossa superfície ao criar as
placas tectônicas e, consequentemente, os continentes. Bem! Poderíamos ser
peixes se assim não acontecesse. Glu, glu... A inteligência do córtex é exceção
também. Custa muita energia. Tanta que nenhum outro animal a tem... Se fosse uma vantagem evolucionária,
estaríamos agora vendo uma copa do mundo com toda espécie de animais. Gorilas
contra macacos-prego. Os beques poderiam ser elefantes, ao invés do loirinho
André Luiz. Eu escalaria para o gol uma baleia azul!
quarta-feira, 28 de maio de 2014
O Primeiro Livro
Depois de tanto tempo, finalmente eu publiquei o meu primeiro livro. Atualmente ele se encontra disponível em dois formatos. O primeiro é eletrônico e está disponível na Amazon para o Kindle. Para acessar o site, basta clicar no link abaixo:
Retalhos da Alma - Kindle
O segundo formato é o impresso, que pode ser acessado através do link abaixo:
Retalhos da Alma - Versão Impressa
Quanto aos leitores que não possuem ou não querem utilizar o Kindle na versão eletrônica, peço um pouco mais de paciência porque eu liberarei uma versão em PDF na Livraria Saraiva.
Basicamente, o conteúdo do livro são os textos que estavam colocados neste blog e no meu outro espaço, chamado de Invenção do Romance. Esta é uma oportunidade para quem quiser reler aqueles textos, ou para pessoas que apreciem o meu estilo.
Um grande abraço.
Checon
sexta-feira, 21 de março de 2014
Inocência
Amar! Nas palavras transviadas de Mário de Andrade: um verbo intransitivo. Pecar, outro verbo cujo mérito surge na dependência dos sistemas de valores de cada pessoa. Amar é inexplicável se quisermos uma precisão lógica confortável. Pecar é mais claro porque se referencia no que acreditamos. Porém, eu poderia pecar se disser que não acredito em amor? Ou poderia amar se disser que acredito no pecado e o relego da minha vida, pela força do meu livre arbítrio? Da poesia de Neruda eu trago um verso que diz: “amo o que não tenho”. Amo uma imagem que criei em todo o meu próprio exercício de viver. Uma imagem de mulher que ainda não existe e possui atributos harmônicos com o quais eu suponho sentir os vestígios da felicidade. Mas peco em não lhe dar formas na minha realidade.
Neste momento talvez ela seja uma garota que surge ao lado do menino que está no meu coração. Os anos que o infortunaram transformaram a lascívia dos seus sentimentos em doce ternura. Nada há mais para se desejar, a não ser a inocência de perceber que o mundo não é mais o mesmo. Que as pessoas envelheceram. Que a amargura petrificou o seu coração.
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