terça-feira, 11 de setembro de 2018

Wings of Icarus (Asas de Ícaro)

Science Museum (London)

This indolent horror persists from dawn to the nightmarish storms. It preaches in my ears its melancholic litany with an atonal and dragged voice. The sound looks like grieve song; which impregnates my reason and indelibly pervades itself in the few yearnings that survived through the years. For more there are thoughts that try to abstract me; for more charms that parade through my iris, the continuous whining deafen the daily life and eclipse my horizon, if there is one. I well know that there is a day after the night that is approaching, but I also know that this day will not be different from what has passed. There is no difference between the weeks, the months and the years when there is no longer the chilling of hope. Life has ended on a precipice and the next step will not have the future.

It was not always like this. Before, the beauty was seen and felt by a young look that opposed the transgressions of civility that spread through the streets. Happiness was translated by dreams, and the city faded into nonexistent colors, robbed of the imagination of other moments captured by sensibility. The gray was painted with paintbrushes of trust in life. The colors of Van Gogh spellbind the instants and there was a woman. The same woman who had the soft traces of seduction, the glitter of passion in her look and the touch of silk in her hands. She was there with her dresses dancing with the breezes, with her perfume rivaling the flowers. She was beautiful and still is what I remember. Life was an endless road with her. With her I could lose the track for a moment, but the road was never far away. The designs of fertility were in everything: at work, in sex, in family, in friends, and in everything that was seen. Feeling was a consequence of experiencing and dreaming was synonymous of accomplishment. I needed to fly.

I do not understand the reasons for nonconformism of human being. Even when we are happy and healthy, we have the urge to venture into the unknown. Perhaps we are motivated by the fear of emptiness or, what is equivalent, by the dread of stagnation. Our inner self is noisy and has aversion to silence and, when the ideas are silenced, the desires are buried. Thus, we begin to walk through the life as puppets in the invisible hands of quotidian. Our spontaneity becomes a shadow in the penumbra and scarcely could be perceived that it exists. The streets stretch across the city and the gray come back to tint all the urban environment. The decadence of the town stampedes itself in the eyes, the foul odor takes away the supposed perfume and the garbage dumps in the bowels of the perception. Slowly the perishing is approaching until that old dream of flying comes.

And we flew into space without roads.

And I flew away from you.

-- x --

Este horror que se deixa indolente, persiste desde a aurora até a tormenta dos pesadelos. Prega nos meus ouvidos sua ladainha melancólica com uma voz atonal e arrastada. Parece a de carpideiras e se impregnam na minha razão e velam de forma indelével os poucos anseios que sobreviveram aos anos. Por mais que existam pensamentos que me tentam abstrair, por mais encantos que desfilam pela minha íris, os lamentos ensurdecem o cotidiano e eclipsam o meu horizonte, se é que há um. Eu bem sei que há um dia depois da noite que se aproxima, mas eu também sei que este dia não será diferente deste que passou. Não há diferenças entre as semanas, os meses e os anos quando não há mais o acalento da esperança. A vida terminou num precipício e o próximo passo não terá mais o futuro.

Nem sempre foi assim. Antes, a beleza era vista e sentida por um olhar jovem que se opunha as transgressões de civilidade que se espalham pelas ruas. A felicidade era traduzida pelos sonhos e a cidade se fantasiava em cores inexistentes, roubadas da imaginação de outros momentos capturados pela sensibilidade. Pintava-se o cinza com pincéis da confiança na vida. Cores de Van Gogh alucinavam os instantes e havia uma mulher. A mesma mulher que possuía os traços suaves da sedução, o brilho da paixão no olhar e o toque de seda em suas mãos. Ela estava lá com seus vestidos a dançar com as brisas, com seu perfume a rivalizar com as flores. Ela estava linda e ainda o é naquilo que me lembro. A vida era uma estrada infinda com ela. Com ela, eu poderia perder o rumo por alguns instantes, mas a estrada nunca ficava distante. Os desígnios da fertilidade estavam em tudo: no trabalho, no sexo, na família, nos amigos e em tudo que se via. Sentir era consequência do experimentar e sonhar era sinônimo de realizar. Eu precisava voar.

Eu não compreendo as razões do inconformismo do ser. Mesmo quando estamos felizes e saudáveis, temos o impulso de nos aventurarmos em direção ao desconhecido. Talvez sejamos motivados pelo medo do vazio ou, o que é equivalente, pelo temor da estagnação. Nosso íntimo é barulhento e tem aversão ao silêncio e, quando as ideias se calam, os desejos se enterram. Assim, começamos a passear na vida como fantoches nas mãos invisíveis do cotidiano. Nossa espontaneidade vira uma sombra na penumbra e mal se pode perceber que ela existe. As ruas se estendem pela cidade e o cinza volta a matizar todo o ambiente. A decadência da urbe se estampa nos olhos, o cheiro fétido arranca o perfume suposto e o lixo se avoluma nas entranhas da percepção. Lentamente o perecimento se aproxima até que vem aquela antigo sonho de voar.

E voamos para o espaço sem estradas.

E eu voei para longe de ti.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Um Passo Após Outro

By Swedish National Heritage Board from Sweden - A wintry walk in Humlegården Park, Stockholm, Sweden, No restrictions, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=51415416


Um passo após outro,
sigo ou persigo um caminho
que se deita indiferente no horizonte.
Arrasto os pés no silêncio de ser escutado,
que ecoa no vazio do destino.
Passo por passo,
passo por trilhas,
turvas pelo cansaço de um corpo lasso
e abandonado pela mente e pelo desejo.
Sigo ou persigo,
nem bem ao certo sei o que o passar quer.
Talvez queira ser só um passar,
ou talvez seja um atravessar.
Insisto e resisto no ir,
para não mais vir.
Carrego uma alma largada,
na bênção desejada pela redenção do querer,
na tortura de querer o que já se tem.
Carrego uma alma passada,
pelos anos que não mais voltam
e pela mente que a ignora.
Carrego uma alma lavada
pelas águas das lágrimas ressentidas,
que assistem e desistem no calar.

(inspirada a partir de uma semente deixada por Malu Carrara de Sambuy)

domingo, 25 de março de 2018

Adeus



Agora estou só. Desliguei o celular e os sons que por vezes lembram uma existência. Eu poderia dizer que descanso a minha mente, mas minto. Não se descansa um mar revolto com mais ventos, não se acalma uma fera esfomeada. O que mais me incomoda é que meu grito não vai muito além destas paredes e as minhas palavras se enterram em si mesmas, com um frontispício de pretensa elegância para a surdez de ouvidos imaginários. Penso que os ditos abririam o meu coração, petrificado e maltratado, mas somente carregam palavras absortas da essência. Não ferem a pasmaceira incauta, não derrubam falsos horizontes, não denunciam uma solidão eterna. São apenas dizeres ditos a duras penas. São frases que não iluminam, apenas se obscurecem com o negrume de quem sou. Um pálido ponto negro dentro da luz da humanidade. Ofereço-te dor, pois é tudo que eu tenho. Nem lágrimas posso te dar porque a emoção foi embora, para outros braços abraçarem, sem o meu corpo despido de alma. Não posso te dar um futuro porque meu passado avança sobre ele e deixa os rastros de frustração. Não posso te dar o passado porque ele se encolhe no excesso de anos que se acumulam em calendários. Aquela criança sonhadora não está mais aqui. Não posso te dar o presente porque estou triste e não seria um presente, apenas um fardo que se carrega com lombo calejado. O que eu posso sinceramente dizer é um adeus. Uma singela despedida da pouca vida que tenho e que se posterga insistentemente pelos anos. Se estende indevidamente e se insinua entre o teu colo indesejoso e as pessoas ansiosas por ignorância. É! É possível que você também ignore tudo isso porque um “adeus” também não passa de uma palavra dita pelo mesmo ponto escuro. Este “adeus” talvez não seja uma despedida, porque quem aqui está já se foi há muito tempo na tua mente.

Ahora estoy solo. He apagado el teléfono y los sonidos que a veces recuerdan una existencia. Podría decir que descansar mi mente, pero miento. No se descansa un mar revuelto con más vientos, no se calma una fiera hambrienta. Lo que más me molesta es que mi grito no va mucho más allá de estas paredes y mis palabras se entierran en sí mismas, con un frontispicio de pretendida elegancia para la sordera de oídos imaginarios. Pienso que los dichos abrirían mi corazón, petrificado y maltratado, pero sólo cargan palabras absorbentes de la esencia. No hieren la pasmada incauta, no derriban falsos horizontes, no denuncian una soledad eterna. Son sólo dichos dichos a duras penas. Son frases que no iluminan, apenas se oscurecen con la negrura de quien soy. Un pálido punto negro dentro de la luz de la humanidad. Te ofrezco dolor, pues es todo lo que tengo. Ni lágrimas puedo darte porque la emoción se fue, para otros brazos abrazar, sin mi cuerpo desnudo de alma. No puedo darte un futuro porque mi pasado avanza sobre él y deja los rastros de frustración. No puedo darte el pasado porque se encoge en el exceso de años que se acumulan en calendarios. Aquel niño soñador ya no está aquí. No puedo darte el regalo porque estoy triste y no sería un regalo, sólo una carga que se carga con lomo calejado. Lo que puedo sinceramente decir es un adiós. Una sencilla despedida de la poca vida que tengo y que se posterga insistentemente por los años. Se extiende indebidamente y se insinúa entre tu cuello indeseado y las personas ansiosas por ignorancia. Es! Es posible que usted también ignore todo esto porque un "adiós" tampoco pasa de una palabra dicha por el mismo punto oscuro. Este "adiós" tal vez no sea una despedida, porque quien aquí está ya se ha ido desde hace mucho tiempo en tu mente.

Now I'm alone. I turned off the cell phone and the sounds that sometimes resemble an existence. I could say that I rest my mind, but I lie. No restless sea rests with more winds, a starving beast does not calm down. What bothers me the most is that my cry does not go far beyond these walls and my words burrow in on themselves, with a frontispiece of pretentious elegance for the deafness of imaginary ears. I think the sayings would open my heart, petrified and mistreated, but only carry words absorbed in the essence. They do not hurt the unsuspecting stench, they do not overturn false horizons, they do not denounce an eternal solitude. They are just said with great difficulty. These are sentences that do not illuminate, but are obscured by the blackness of who I am. A pale black spot within the light of humanity. I offer you pain, because that's all I have. No tears I can give you because the emotion has gone, for other arms to embrace, without my body naked of soul. I cannot give you a future because my past advances on it and leaves the traces of frustration. I cannot give you the past because it shrinks in the excess of years that accumulate in calendars. That dreamy child is no longer here. I cannot give you the gift because I'm sad and it would not be a gift, just a burden that is loaded with calloused loin. What I can honestly say is goodbye. A simple farewell of the little life that I have and that is persistently put off by the years. It stretches out unduly and creeps between your undesirable lap and the people anxious for ignorance. IT IS! You may also ignore all this because a "goodbye" is also just a word spoken by the same dark spot. This "goodbye" may not be a farewell, because who is here is long gone in your mind.

São Jorge - Saint George

  Imagem gerada pelo Midjourney São Jorge! Mostraste a coragem misericordiosa que me livrou do dragão que sempre carreguei em meu coração. I...